terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Educação no Âmbito Hospitalar





Ao se pensar na relação entre educação e hospitalização, constata-se, com base na literatura, que essa integração entre o pedagógico e o ambiente hospitalar surge para garantir o direito ao atendimento pedagógico-educacional durante o período de internação de crianças e adolescentes. Tal modalidade de atendimento denomina-se classe hospitalar, que é assim definido pelo Ministério da Educação (MEC):

Um ambiente hospitalar que possibilita atendimento educacional de crianças e jovens internados que necessitam de educação especial e que estejam em tratamento hospitalar. (BRASIL, 1994, p.20).

De acordo com Fontes (2005), a primeira classe hospitalar no Brasil foi instituída em 1950 no Hospital Municipal Jesus, no Rio de Janeiro, e está vigorando até hoje. A proposta de escolarização das crianças e jovens internados tem o intuito de diminuir o fracasso e evasão escolar, utilizando uma metodologia que consiste na atuação de professores em hospitais nos moldes da escola regular. Segundo Fonseca (apud Ortiz; Freitas, 2005, p. 52), classe hospitalar é entendida como:

Locus específico da educação destinado a prover acompanhamento escolar a alunos impossibilitados de freqüentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar ou atendimento ambulatorial.

Ceccim (1999) define que a classe hospitalar enquadra-se como atendimento pedagógico-educacional, que afiança a preponderância nas funções do ensino: instrução escolar, desenvolvimento nos processos psíquicos e intelectivos e na produção de aprendizagens, sendo, pois, um delineamento de “escola no hospital”.
    
Na concepção de alguns pesquisadores, como Taam (1997), da Universidade Estadual de Maringá, a classe hospitalar sugere uma prática pedagógica diferenciada da tradicional (trazer a escola para dentro do hospital), levando em consideração o tempo e o espaço no qual a criança está inserida. Para que essa concepção seja possível, torna-se necessário que os profissionais da educação envolvidos neste contex to tenham a recuperação da saúde como objetivo primordial, da mesma forma que todos os profissionais que trabalham no hospital. Um dos objetivos da classe hospitalar é promover o bem-estar da criança no ambiente de internação hospitalar, bem como o de proporcionar o direito de receber educação, independente do espaço físico no qual se encontra.
    
A educação, nesse contexto, transforma-se e cumpre um papel fundamental de modificar o mundo. Como diz Freire (1997, p. 110), “a educação é uma forma de intervenção no mundo”, mesmo em um ambiente caracterizado por sentimentos de medo, dor, sensibilidade e mágoas.
Por meio da classe hospitalar, a possibilidade de reconstrução da vida torna-se menos distante, na medida em que o conhecimento contribui no resgate da subjetividade desses sujeitos marcados pelo sofrimento.
    
A partir do momento em que esses sujeitos internados recebem a oportunidade de dar continuidade à aquisição do conhecimento, por meio da ação educativa no hospital, o processo de hospitalização e conseqüente ruptura da vida diária tornam-se menos dolorosos, na medida em que desmistificam as fantasias, os medos, as angústias e o significado da doença exteriorizado pela criança. Essa forma de exteriorização ocorre por meio do processo pedagógico que proporciona uma construção do conhecimento sobre o ambiente, a rotina e até mesmo sobre as informações médicas a respeito da doença.
     
Um dos desafios com que os educadores precisam lidar constantemente consiste em pensar estratégias que proporcionem à criança vivenciar o saber como uma possibilidade de vida. Isso não é tarefa fácil, pois a tentativa de promover a educação como possibilidade de vida e de prazer é realizado dentro de um ambiente marcado por perdas, dor e morte, tendo influências diretas na criança. Amenizar e canalizar essa influência negativa é que talvez consista no maior desafio. Entretanto, é dialogando sobre esse ambiente, sobre esse espaço e tudo o que nele ocorre, que a pedagogia demarca sua importância e se constitui em uma escuta diferenciada que possibilita a esses profissionais educadores penetrarem num mundo sem cor e proporcionarem a essa criança, conforme referem Ortiz e Freitas (2005, p. 14), “uma linguagem do investimento do outro e um saber com sabor de vida.” Dessa forma, para se atingir esse objetivo e superar as dificuldades, os profissionais educadores necessitam ter paciência, tolerância à frustração e compreensão das limitações do paciente que se encontra fragilizado física, emocional e, muitas vezes, até intelectualmente. Dessa forma, o atendimento hospitalar educacional requer um sistema estruturado, capaz de dar conta de todos esses fatores. Além disso, também é preciso contar com os educadores qualificados que não poderão atuar sozinhos, mas cercados por uma equipe de profissionais da saúde, bem como da família, valorizando diferentes perspectivas para que a internação seja possível e atinja seu objetivo.

     
É por meio do trabalho interdisciplinar, da busca pelo mesmo interesse, do desenvolvimento integral do ser humano, considerando o indivíduo como um sujeito global, que será possível que as crianças em sofrimento psíquico que se encontram no ambiente hospitalar tornem-se sujeitos mais respeitados.
     
A função da educação na classe hospitalar, além de permitir à criança a aproximação com o ambiente escolar e a continuidade da construção do saber, é o de impedir que o processo da hospitalização traga prejuízos ao período de desenvolvimento dessa criança e que a gama de sintomas e experiências traumáticas decorrentes desse processo não seja provocador de quadros psicopatológicos, como Roza (1997, p. 170-171) nos aponta.
     
Nos bebês, evidenciam-se inibições psicomotoras, distonias, apatias, debilidade psicomotora, dispraxias, distúrbios da alimentação e sono. Nas crianças maiores, os transtornos relativos ao estresse grave se manifestam como depressões, fobias, distúrbios de compor tamento, agressividade, agitação psicomotora, perda do controle esfincteriano, anorexia e insônia.
Para que o processo de internação hospitalar não provoque prejuízos à integridade físico-emocional e nem se torne agressor no processo de estruturação da personalidade da criança, é de grande relevância que toda a equipe, familiares e profissionais educadores observem se a criança apresenta sintomas e problemas de personalida-de decorrentes das experiências traumáticas associadas ao ambiente da hospitalização. Tais informações são de ex trema relevância, pois, conforme nos diz Yañez (1998), possíveis interferências na estruturação subjetiva podem se constituir em causas que fraturam o processo das aquisições cognitivas e da aprendizagem.


     
Para aprender, não é suficiente dispor de uma capacidade lógica, mas também é preciso o desejo. É necessário, por tanto, que o objeto de conhecimento esteja situado numa rede simbólica que lhe outorgue uma significação.

   
Nesse ambiente marcado pelas rotinas das internações, conforme Ortiz e Freitas (2005), que, na maioria das vezes, não vislumbram a subjetividade e seus contornos emocionais, culturais e sociais na criança, fica a preocupação com a devastadora influência do adoecimento e da internação hospitalar no processo de desenvolvimento desse paciente, quando este é cerceado em seu transcurso de ser humano livre e saudável. Dessa forma, percebe-se que não há um sujeito de desejo levado em conta e, para que a ação educativa tenha resultado, é necessário esse investimento por par te dos profissionais para que um sujeito do desejo possa emergir novamente, falando em nome próprio.  Necessita-se, entretanto, produzir, conforme nos diz Pinho (2001), a junção de dois campos absolutamente heterogêneos: o corpo e a linguagem, sendo o enlace entre esses dois campos o caminho essencial para a estruturação de um sujeito.

     
A integração da saúde e educação no hospital pode tornar possível o resgate da estruturação subjetiva. É essa realidade do hospital e da doença que é colocada em cena com os objetos da realidade a par tir do processo de aprendizagem, quando realizado na forma lúdica. Dessa forma, a educação hospitalar tem o intuito de fazer com que a criança hospitalizada conviva com a doença da melhor forma possível e sinta-se uma criança com sua identidade e individualidade preser vadas. Desse modo, o atendimento pedagógico pode evitar que esses pacientes, crianças considera-das “diferentes” pela experiência par ticular de internação hospitalar, tornem-se estigmatizados e desacreditados de suas potencialidades. Além de ser uma luta a favor da vida, é uma luta contra a

evasão e o fracasso escolar posterior ao proces-so de internação hospitalar. Segundo Ortiz e Freitas (2005, p. 20), a criança hospitalizada é tão plena como todas as outras, e o que lhe resta não é atingir o que lhe falta ser, adquirir um desempenho compatível com as normas da sociedade; mas expandir o que realmente é, ou seja, afirmar-se em sua singularidade.



A escolarização hospitalar tem ainda, antes de tudo, o objetivo de resgatar a singularidade de cada criança que chega na classe hospitalar,

pois traz consigo um quadro emocional único. Após deixá-la segura, o professor entrega-se ao processo educativo. 


Texto retirado do livro VIDYA, v. 24, nº 42, p. 181-190, jul./dez., 2004 - Santa Maria, 2007. Capítulo-HOSPITALIZAÇÃO INFANTIL E EDUCAÇÃO: CAMINHOS POSSÍVEIS PARA A CRIANÇA DOENTE,  Saccol, Camila s.; Fighera, Jossiele; Dorneles, Letícia. 


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