Ao
se pensar na relação entre educação e hospitalização,
constata-se, com base na literatura, que essa integração entre o
pedagógico e o ambiente hospitalar surge para garantir o direito
ao atendimento pedagógico-educacional durante o período de
internação de crianças e adolescentes. Tal modalidade de
atendimento denomina-se classe hospitalar, que é assim definido
pelo Ministério da Educação (MEC):
Um
ambiente hospitalar que possibilita atendimento educacional de
crianças e jovens internados que necessitam de educação
especial e que estejam em tratamento hospitalar. (BRASIL, 1994,
p.20).
De
acordo com Fontes (2005), a primeira classe hospitalar no Brasil
foi instituída em 1950 no Hospital Municipal Jesus, no Rio de
Janeiro, e está vigorando até hoje. A proposta de escolarização
das crianças e jovens internados tem o intuito de diminuir o
fracasso e evasão escolar, utilizando uma metodologia que consiste
na atuação de professores em hospitais nos moldes da escola
regular. Segundo Fonseca (apud Ortiz; Freitas, 2005, p. 52),
classe hospitalar é entendida como:
Locus
específico da educação destinado a prover acompanhamento escolar
a alunos impossibilitados de freqüentar as aulas em razão de
tratamento de saúde que implique internação hospitalar ou
atendimento ambulatorial.
Ceccim
(1999) define que a classe hospitalar enquadra-se como atendimento
pedagógico-educacional, que afiança a preponderância nas funções
do ensino: instrução escolar, desenvolvimento nos processos
psíquicos e intelectivos e na produção de aprendizagens, sendo,
pois, um delineamento de “escola no hospital”.
Na
concepção de alguns pesquisadores, como Taam (1997), da
Universidade Estadual de Maringá, a classe hospitalar sugere uma
prática pedagógica diferenciada da tradicional (trazer a escola
para dentro do hospital), levando em consideração o tempo e o
espaço no qual a criança está inserida. Para que essa concepção
seja possível, torna-se necessário que os profissionais da
educação envolvidos neste contex to tenham a recuperação da
saúde como objetivo primordial, da mesma forma que todos os
profissionais que trabalham no hospital. Um dos objetivos da classe
hospitalar é promover o bem-estar da criança no ambiente de
internação hospitalar, bem como o de proporcionar o direito de
receber educação, independente do espaço físico no qual se
encontra.
A
educação, nesse contexto, transforma-se e cumpre um papel
fundamental de modificar o mundo. Como diz Freire (1997, p. 110),
“a educação é uma forma de intervenção no mundo”, mesmo em
um ambiente caracterizado por sentimentos de medo, dor,
sensibilidade e mágoas.
Por
meio da classe hospitalar, a possibilidade de reconstrução da vida
torna-se menos distante, na medida em que o conhecimento contribui
no resgate da subjetividade desses sujeitos marcados pelo
sofrimento.
A
partir do momento em que esses sujeitos internados recebem a
oportunidade de dar continuidade à aquisição do conhecimento, por
meio da ação educativa no hospital, o processo de hospitalização
e conseqüente ruptura da vida diária tornam-se menos dolorosos, na
medida em que desmistificam as fantasias, os medos, as angústias e
o significado da doença exteriorizado pela criança. Essa forma de
exteriorização ocorre por meio do processo pedagógico que
proporciona uma construção do conhecimento sobre o ambiente, a
rotina e até mesmo sobre as informações médicas a respeito da
doença.
Um
dos desafios com que os educadores precisam lidar constantemente
consiste em pensar estratégias que proporcionem à criança
vivenciar o saber como uma possibilidade de vida. Isso não é
tarefa fácil, pois a tentativa de promover a educação como
possibilidade de vida e de prazer é realizado dentro de um ambiente
marcado por perdas, dor e morte, tendo influências diretas na
criança. Amenizar e canalizar essa influência negativa é que
talvez consista no maior desafio. Entretanto, é dialogando sobre
esse ambiente, sobre esse espaço e tudo o que nele ocorre, que a
pedagogia demarca sua importância e se constitui em uma escuta
diferenciada que possibilita a esses profissionais educadores
penetrarem num mundo sem cor e proporcionarem a essa criança,
conforme referem Ortiz e Freitas (2005, p. 14), “uma
linguagem do investimento do outro e um saber com sabor de vida.”
Dessa forma, para se atingir esse objetivo e superar as
dificuldades, os profissionais educadores necessitam ter paciência,
tolerância à frustração e compreensão das limitações do
paciente que se encontra fragilizado física, emocional e, muitas
vezes, até intelectualmente. Dessa forma, o atendimento hospitalar
educacional requer um sistema estruturado, capaz de dar conta de
todos esses fatores. Além disso, também é preciso contar com os
educadores qualificados que não poderão atuar sozinhos, mas
cercados por uma equipe de profissionais da saúde, bem como da
família, valorizando diferentes perspectivas para que a internação
seja possível e atinja seu objetivo.
É
por meio do trabalho interdisciplinar, da busca pelo mesmo
interesse, do desenvolvimento integral do ser humano, considerando o
indivíduo como um sujeito global, que será possível que as
crianças em sofrimento psíquico que se encontram no ambiente
hospitalar tornem-se sujeitos mais respeitados.
A
função da educação na classe hospitalar, além de permitir à
criança a aproximação com o ambiente escolar e a continuidade da
construção do saber, é o de impedir que o processo da
hospitalização traga prejuízos ao período de desenvolvimento
dessa criança e que a gama de sintomas e experiências traumáticas
decorrentes desse processo não seja provocador de quadros
psicopatológicos, como Roza (1997, p. 170-171) nos aponta.
Nos
bebês, evidenciam-se inibições psicomotoras, distonias, apatias,
debilidade psicomotora, dispraxias, distúrbios da alimentação e
sono. Nas crianças maiores, os transtornos relativos ao estresse
grave se manifestam como depressões, fobias, distúrbios de compor
tamento, agressividade, agitação psicomotora, perda do controle
esfincteriano, anorexia e insônia.
Para
que o processo de internação hospitalar não provoque prejuízos à
integridade físico-emocional e nem se torne agressor no processo de
estruturação da personalidade da criança, é de grande relevância
que toda a equipe, familiares e profissionais educadores observem se
a criança apresenta sintomas e problemas de personalida-de
decorrentes das experiências traumáticas associadas ao ambiente da
hospitalização. Tais informações são de ex trema relevância,
pois, conforme nos diz Yañez (1998), possíveis interferências na
estruturação subjetiva podem se constituir em causas que fraturam
o processo das aquisições cognitivas e da aprendizagem.
Para
aprender, não é suficiente dispor de uma capacidade lógica, mas
também é preciso o desejo. É necessário, por tanto, que o
objeto de conhecimento esteja situado numa rede simbólica que lhe
outorgue uma significação.
Nesse
ambiente marcado pelas rotinas das internações, conforme Ortiz e
Freitas (2005), que, na maioria das vezes, não vislumbram a
subjetividade e seus contornos emocionais, culturais e sociais na
criança, fica a preocupação com a devastadora influência do
adoecimento e da internação hospitalar no processo de
desenvolvimento desse paciente, quando este é cerceado em seu
transcurso de ser humano livre e saudável. Dessa forma, percebe-se
que não há um sujeito de desejo levado em conta e, para que a ação
educativa tenha resultado, é necessário esse investimento por par
te dos profissionais para que um sujeito do desejo possa emergir
novamente, falando em nome próprio. Necessita-se, entretanto,
produzir, conforme nos diz Pinho (2001), a junção de dois campos
absolutamente heterogêneos: o corpo e a linguagem, sendo o enlace
entre esses dois campos o caminho essencial para a estruturação de
um sujeito.
A
integração da saúde e educação no hospital pode tornar possível
o resgate da estruturação subjetiva. É essa realidade do hospital
e da doença que é colocada em cena com os objetos da realidade a
par tir do processo de aprendizagem, quando realizado na forma
lúdica. Dessa forma, a educação hospitalar tem o intuito de fazer
com que a criança hospitalizada conviva com a doença da melhor
forma possível e sinta-se uma criança com sua identidade e
individualidade preser vadas. Desse modo, o atendimento pedagógico
pode evitar que esses pacientes, crianças considera-das
“diferentes” pela experiência par ticular de internação
hospitalar, tornem-se estigmatizados e desacreditados de suas
potencialidades. Além de ser uma luta a favor da vida, é uma luta
contra a
evasão
e o fracasso escolar posterior ao proces-so de internação
hospitalar. Segundo Ortiz e Freitas (2005, p. 20), a
criança hospitalizada é tão plena como todas as outras, e o que
lhe resta não é atingir o que lhe falta ser, adquirir um
desempenho compatível com as normas da sociedade; mas expandir o
que realmente é, ou seja, afirmar-se em sua singularidade.
A
escolarização hospitalar tem ainda, antes de tudo, o objetivo de
resgatar a singularidade de cada criança que chega na classe
hospitalar,
pois
traz consigo um quadro emocional único. Após deixá-la segura, o
professor entrega-se ao processo educativo.
Texto retirado do livro VIDYA, v. 24, nº 42, p.
181-190, jul./dez., 2004 - Santa Maria, 2007. Capítulo-HOSPITALIZAÇÃO INFANTIL
E EDUCAÇÃO: CAMINHOS POSSÍVEIS PARA A CRIANÇA DOENTE, Saccol,
Camila s.; Fighera, Jossiele; Dorneles, Letícia.
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